Legal · 5 min de leitura

Número virtual é legal no Brasil? O que você precisa saber (LGPD)

Não existe lei proibindo usar número virtual. O que existe são leis sobre o que você faz com ele. O enquadramento com a LGPD, o que é permitido, o que é crime e onde está a linha.

Equipe seunumeroOperação e suporte da plataformaPublicado em

Toda semana alguém pergunta ao suporte alguma variação de "isso aqui é legal?". A resposta curta é sim — e a resposta longa é mais útil, porque a pergunta que importa é outra.

Não existe, na legislação brasileira, norma proibindo alugar uma linha telefônica para receber uma mensagem. Não há tipo penal, não há vedação administrativa, não há resolução da Anatel nesse sentido. O que existe são leis sobre o que você faz depois.

Este texto separa as duas coisas. Ele não substitui advogado, e onde afirmamos algo jurídico está a fonte oficial para você conferir.

Por que a LGPD joga a favor de quem usa número virtual

O seu telefone é dado pessoal. A Lei 13.709/2018 (LGPD) define dado pessoal, no art. 5º, I, como "informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável" — e o número de celular identifica muito bem.

Duas partes da lei importam aqui.

O princípio da necessidade (art. 6º, III). A LGPD manda limitar o tratamento "ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades". Traduzindo: uma empresa só deveria pedir o seu telefone se ele for realmente necessário para o serviço.

Na prática, metade dos formulários brasileiros pede celular obrigatório para coisa que não precisa de celular nenhum. Um site de cupom não precisa do seu telefone. Um cadastro de newsletter não precisa. Um Wi-Fi de shopping não precisa.

Quando você entrega um número virtual nesses casos, está fazendo pela sua conta o que a lei já esperava da empresa: minimizar o dado.

O direito de eliminação (art. 18, VI). Você pode pedir que uma empresa apague o seu dado pessoal. É um direito seu, com prazo de resposta. O problema é que exercer esse direito depende de a empresa cooperar, e você nunca sabe para quem ela já repassou. É reativo e lento.

Não dar o número desde o início é preventivo e imediato. Uma coisa não substitui a outra, mas a prevenção custa muito menos esforço.

Reforçando a base legal

O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), no art. 7º, garante ao usuário o não fornecimento de seus dados pessoais a terceiros salvo consentimento livre e expresso. Ou seja: a lei brasileira já parte do princípio de que você controla a circulação do seu número. Usar um número virtual é exercer esse controle, não driblá-lo.

Permitido e proibido, sem meio-termo

UsoSituação
Criar conta sua num serviço, protegendo seu número pessoalPermitido
Testar o fluxo de SMS de um produto que você desenvolvePermitido
Separar contato profissional do pessoalPermitido
Receber código de um site que exige celular sem necessidadePermitido
Comprar em loja estrangeira que exige número localPermitido
Criar conta se passando por outra pessoaCrime — falsidade ideológica
Aplicar golpe, obter vantagem enganando alguémCrime — estelionato
Fraude por meio eletrônicoCrime — estelionato qualificado
Criar contas em massa para spam, bot ou manipulaçãoProibido nos nossos termos, e viola os termos do serviço-alvo
Burlar banimento ou bloqueio de contaProibido nos nossos termos
Receber código de conta bancária de terceiroCrime, e bloqueado pelos bancos de qualquer forma

Os crimes citados estão no Código Penal: falsidade ideológica no art. 299, falsa identidade no art. 307, estelionato no art. 171 e a fraude eletrônica no art. 171, § 2º-A, incluído pela Lei 14.155/2021.

Repare no padrão: nenhum desses crimes é sobre o número virtual. Todos são sobre enganar alguém. O número é só o instrumento — a mesma conduta com chip pré-pago comprado no nome de outro dá no mesmo lugar.

O que a lei não resolve: os termos de uso

Aqui mora a confusão mais comum. Legalidade e permissão contratual são coisas diferentes.

Um serviço pode ter, nos termos dele, uma cláusula proibindo número virtual. Descumprir isso não é crime — é quebra de contrato. A consequência é a empresa encerrar a sua conta, e ela pode fazer isso.

Por isso a recomendação prática deste blog é sempre a mesma: use número virtual onde perder a conta não seria um problema. Não é uma questão jurídica, é gestão de risco.

Por que bancos bloqueiam (e por que isso é bom)

Nubank, Inter, Itaú e os bancos digitais em geral recusam número virtual de propósito. Não é implicância.

Instituições financeiras estão sujeitas a regras de identificação de cliente e prevenção à lavagem de dinheiro. O telefone entra nesse conjunto de dados de identificação. Um número que pode mudar de dono a cada vinte minutos não serve para essa finalidade, e um banco que aceitasse isso estaria criando um caminho aberto para conta laranja.

Do lado do consumidor

Se o problema é o oposto — você está sendo importunado por telemarketing no seu número real —, existem dois caminhos oficiais: o cadastro no Não Perturbe, mantido sob coordenação da Anatel, e a reclamação formal pelo consumidor.gov.br, que é o canal público integrado ao Procon.

E a Anatel?

A Anatel regula operadoras e serviços de telecomunicações. Ela não proíbe que uma linha licenciada seja usada para receber SMS em nome de terceiros — quem responde pelo uso regular da linha é a operadora e o provedor que a opera, não o usuário final que recebe um código.

O que existe de regulação relevante para você é do outro lado do balcão: as regras de direitos do consumidor de telecomunicações e os mecanismos contra chamadas indesejadas, que estão na página da própria Anatel.

O que a gente faz aqui

Nossos termos de uso aceitável proíbem expressamente fraude, falsidade ideológica, criação de contas em massa e uso do serviço para burlar bloqueio. Conta que usa a plataforma para isso é encerrada.

Não é postura de marketing. Uso fraudulento queima faixas inteiras de números, o que faz os serviços bloquearem mais, o que derruba a taxa de entrega e sobe o preço para todo mundo que usa direito. O incentivo está alinhado.

Para continuar

Perguntas frequentes

+Existe lei que proíbe número virtual no Brasil?

Não. Não há norma brasileira proibindo alugar uma linha para receber um SMS. A legalidade depende da finalidade: cadastro legítimo é permitido, usar o número para fraude ou para se passar por outra pessoa é crime, e continuaria sendo com qualquer tipo de número.

+Meu número de telefone é dado pessoal pela LGPD?

Sim. A Lei 13.709/2018 define dado pessoal como informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável, e o telefone se encaixa nisso. É por isso que você tem direito de pedir a eliminação dele de uma base.

+Usar número virtual me protege de vazamento?

Reduz a exposição, não elimina. Se a empresa nunca teve seu telefone real, ele não aparece quando a base dela vaza. Mas o resto do que você entregou (e-mail, CPF, endereço) continua exposto.

+Posso ser processado por criar conta com número virtual?

Pela conta em si, não — não há ilícito em receber um SMS numa linha alugada. O que gera responsabilidade é o uso: falsidade ideológica, estelionato e fraude eletrônica são crimes previstos no Código Penal, com ou sem número virtual envolvido.

+E se a empresa proibir número virtual nos termos dela?

Aí é contrato, não lei. A empresa pode encerrar a sua conta por descumprir os termos dela, e isso é direito dela. Não vira crime, mas você perde a conta — por isso não vale usar número virtual em nada que você não pode perder.

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